terça-feira, 20 de junho de 2017

Broto de Bambu!








BROTO DE BAMBU


R. B. Santos / Dezembro;2016.

Revisão: Luísa Aranha

Agradecimentos Especiais: SSEV” – Sociedade Secreta dos Escritores Vivos (Obrigado Camila Deus Dará).


Para Ela, Esteja Onde Estiver: “Que repartiu o pão entre cinco, fazendo-o suficiente para mais de dez. Isso; por mais de uma vez. Obrigado Mãe!”





O bairro era bem simples, desses de periferia em cidade grande. Onde gente conversa tão alto, que até parece briga. Cachorro late de noite e de dia. Neste, até galo tinha. A rua onde se passa a história não era nada comum, em formação de “S”, com calçadas estreitas, um lugar pobre. No final, logo depois da segunda curva, não bastasse o que faltava de bom, havia ainda uma “boca de fumo”. O vai e vem era constante.

Num sobrado, mais ou menos no meio da rua, morava Dona Raimunda. Havia duas janelas que davam para a parte da frente. Com isso conseguia uma visão privilegiada de boa parte do local, e também, dos vizinhos e transeuntes.  Era uma senhora já de idade, devia ter mais ou menos uns sessenta para setenta anos, ninguém sabia ao certo. Adorava ficar espiando e conferindo a rotina das pessoas. Gostava tanto, que ás vezes passava da hora de almoçar. Sua filha reclamava, mas ela não ligava. Acordava bem cedo, passava o café, em coador de pano para dar mais sabor, comia dois pedaços graúdos de mandioca cozida, que a manteiga derretia, e se debruçava no seu local predileto. Sua boa e velha janela, “melhor que televisão”, pensava ela.

“Lá vem ele! É o Sr. José! E pelo jeito, bêbado de novo, logo cedo. Trançando as pernas, mas não cai o desgraçado. Podia cair! Dizem que sorrir faz bem para as rugas, e eu bem que estou precisando. Velho sem vergonha. Nessa idade. Também, a de se entender, não é. Com tanta galha que a mulher colocou na cabeça do homem, não se admira que ele beba. Talvez para esquecer, ou para enlouquecer mesmo”.  Não poupava críticas, ela era assim sem piedade. E continuava enquanto um rapaz caminhava descendo a rua.

“Agora é o outro. O maloqueiro do Luis Castân. Nem morar aqui mora. Pensa que eu não sei. Vai buscar maconha o safado. E deve até cobrar por isso. Não é possível alguém fumar tanto assim e não morrer. Pela quantidade de vezes que ele sobe e desce, quem sabe não abriu uma concorrência e cobra mais caro. Só pode ser isso. Não vejo outra explicação! É traficante, é sim”.

 O jovem passou em frente da casa, fez menção com a cabeça em cumprimento e seguiu rua abaixo. Dona Raimunda limpou os óculos no vestido, para melhorar a visão, e olhava agora para a parte de cima da rua.

“A Sofia nunca mais vai arrumar marido. Depois que inventou de trabalhar fora e fazer faculdade, as brigas com o cônjuge só aumentaram. Brigaram, brigaram tanto, que ele não aguentou e foi embora. Não demorou um mês e a franga já está com outro. Veja que falta de vergonha, os dois num agarro só em frente ao portão. Aposto que já eram amantes”.

Do outro lado da rua, numa casa térrea e com uma grande área murada na frente, Ivete abria o portão para o amigo Carlos que acabara de chegar. Como o muro era baixo, ficaram ali, apoiados. Papeando e vendo o movimento. Podiam ver a Dona Raimunda dali, mas com certeza, ela não conseguiria ouvi-los. Havia certa distância entre as casas, e a anciã já não escutava muito bem. Ivete, em voz baixa, foi a primeira falar.

- Veja só, Carlos. Mal amanhece o dia, e lá está ela. A velha coroca. Cuidando da vida de todos. É assim durante o dia todo, não sai da janela por nada.

- É mesmo Ivete, eu já tinha prestado atenção. Tem gente que não tem o que fazer. Acho que deve ter a vida vazia. – Fez uma breve pausa. - Sabe se a filha ainda mora com ela?
      
- Sei lá! Acho que sim. Eu não gosto de ficar reparando na vida de ninguém, tenho mais o que fazer, sabe. A minha já é bastante interessante para mim.  – E com o olhar cerrado na direção da janela, disparou. -Velha rabugenta!

- Quando essa daí morrer a alma dela vai voltar e ficar nesta janela. Deus me livre! – Observou Carlos.

Duas semanas depois, coincidência ou não, Dona Raimunda faleceu. Os dois amigos se reencontraram e conversavam no local de sempre, sobre o ocorrido.
- Ivete! Sabe dizer o que aconteceu com a velha? Do que foi mesmo que ela morreu? – Perguntou enquanto olhava para a janela, agora vazia.

- Bem, ouvi dizer que foi derrame. Eu não fui ao velório e nem ao enterro. Nunca tive intimidade com a família. E também, não gostava nem um pouco da bruxa. Mas pelos comentários, acho que foi isso sim.

- Bom... que Deus a tenha. Pelo menos agora a rua ficará mais tranquila. Que coisa! Fazer o que, não é? É o destino de todos nós. – Colocou uma das mãos na cabeça e arrematou. - Ah!... E antes que eu morra também, vou indo... lembrei que tenho que resolver uma coisa.

Quando Carlos saiu e já ia longe, Ivete ficou por ali, observava do muro.

“Esse Carlos... sei não, hein. Não trabalha, não estuda e nem namora o infeliz! Resolver uma coisa uma ova! Pensa que eu não sei, vai é dar o rabo para o Ricardo. Tenho quase certeza de que esses dois são dois maricas. ” – Esticou o pescoço para ver melhor.
“Ei! Espera um pouco aí! Quem é aquele?!... É o Senhor José?!... Nossa! E bêbado...  De novo...”








quarta-feira, 17 de maio de 2017

MUDANÇAS!





Mudar, ou não mudar? Eis uma questão!

Nós mudamos!
Todos nós mudamos! Querendo ou não mudar; mudamos.

Se não mudamos, somos “mudados”.
O mundo não para, como cantava um dos maiores poetas do rock nacional “Cazuza”. Como o mundo não para de girar, se tentarmos brecar o mundo, somos atropelados por ele, e por todos.

Nem ficar em casa escondido, sozinho e quieto, você pode. Isso implica em dizer que, você e eu, não temos escolha.
Ou vivemos, “ou vivemos”.
As mudanças são diversas, e podem acontecer de formas variadas.

Você pode mudar de emprego.
Escolher, ou batalhar por uma nova profissão. Se necessitar, para que essa mudança aconteça, você pode e “deve” voltar para a escola.

Você pode mudar a casa.
Mudar os móveis do quarto, da sala ou da cozinha. Provavelmente não resolva seus problemas financeiros, mas, lhe trará uma sensação de frescor, de novo ambiente.

Pode também, mudar “de”, casa.
Alugar, ou comprar um novo apartamento – se você gosta de lugares altos -, ou, uma casa térrea mais ampla, com um pequeno quintal nos fundos, para o filho correr e brincar. Ou quem sabe, não tenha filhos. Para o pequeno “pet” correr e brincar.

Ou talvez, mudar de cidade.
Ir finalmente morar no litoral, numa casinha no meio do mato. Vai de cada um e os gostos são muitos.
A felicidade é única, individual.

Pode também mudar, hábitos e costumes. Principalmente os que fazem mal.
Deixar de fumar, abandonar para sempre aquilo que te muda por dentro, sem você nem perceber.
Que te muda, sutil, escondido e discreto.
É perigoso. Ser mudado, sem ver.

Ainda falando do tema costumes.
Pode deixar de ser ocioso, de procrastinar.
Começar finalmente a correr, ou quem sabe nadar, vale fazer algum exercício. O que na maioria dos casos, é muito bom. Ajuda a manter o corpo em forma, agrega, aumenta a saúde e a longevidade.

Já, existem mudanças que quando são feitas, nos mudam também, independente de nós.
Pode dormir casado ou casada, e acordar separado, separada. Ou quem sabe pior, traído ou traída. Essa mudança quando é decidida, geralmente é feita e causada por outros. Somos resultados nos efeitos finais, no caso em si, e nem sempre a causa.

Outras mudanças que nos acometem e vem de fora, mas que agem por dentro, são aquelas mudanças na vida diária.
O lugar antigo que você conhecia, a praça da esquina que virou escritório, ou comércio alugado.
O terreno vazio que era um parque, que quando era criança você corria na terra, na grama molhada.
Um bom futebol, ou só para andar. Hoje é um prédio, condomínio fechado, artigo de luxo, e caro morar.

A mudança do clima, que muda com o tempo.
Aqui em São Paulo, não tem mais garoa, não tem mais neblina e o som mudou.
O que eu ouvia nas manhãs, nos anos 80, ao acordar, no rádio antigo que o meu pai possuía, nem rádio, nem ele, eu tenho mais para ouvir.

Mudança de idade.
Mudanças no corpo, nos ossos, na pele. Essa é cruel. Nem creme segura, nem intervenção médica. Vai-se o cabelo. Muda o tom da voz, a disposição. Muda o querer, o poder, muda o sim, muda o não.

No hall das mudanças, talvez a maior, e a mais importante seja a percepção que temos da vida.
Muda a prioridade, o que escolher. O que fazer, o que deixar de comer. Muda a maneira de lidar com o tempo.

Seguimos mudando, aqui e ali.
Sofrendo mudanças de um ou de outro.
Acho que vale deixar como alerta, que a melhor mudança que podemos fazer, é não deixar de dizer o que temos vontade. Principalmente para quem devemos dizer.

Dizer que gostou de um final de semana.
Que o tempero do almoço estava bom, “ou ruim”. Do que gosta, e o que não.
E finalmente para quem nos ama, para quem cuida de nós, e sempre cuidou.
Dizer que percebe, que vê, e sabe disso. Que ela ou que ele, é importante para nós.

Que faz diferença, engrandece, completa.
Enriquece e preenche, alavanca e estimula, incentiva a gente. Transforma um estado ruim de espírito, amargo, frio, escuro e vazio. Num ambiente de luz, de quentura e calor, muda o mal, transformando em bem.

Muda por fim, o sentir-se sozinho, mudando o estado de solidão, muda o número “um” para “dois”.
Me enche de amor, de carinho de afeto.
Muda as batidas do meu Coração.



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R. B. Santos; Maio / 2017.




domingo, 30 de abril de 2017

Coisas de Deus!






“COISAS DE DEUS”



Seu Jerônimo, um senhor aposentado, com idade superior aos sessenta anos, era um homem evangélico e como bom crente, frequentava a igreja regularmente. Andava sempre com sua bíblia e não perdia a oportunidade de pregar a palavra de Deus. Ele e sua esposa tomavam conta do neto. Foi deixado pela única filha do casal, quando este ainda era pequeno. E ela, a filha, viajou para tentar a vida na cidade grande.   

Depois de alguns anos, a mãe do garoto faleceu, antes mesmo de ter a chance de vir buscá-lo. Então, como não tinha outro jeito, ficou aos cuidados dos avós. Foi criado como filho. Com toda atenção, amor e carinho. Seu nome era Peter, mas para Jerônimo, era Pite. Não deixavam faltar nada para o garoto.

Não se sabia por qual motivo, conforme ele foi crescendo, foi mudando de personalidade. Tornou-se rebelde e muito respondão. Brigava com os amigos na escola e falava muito palavrão. Bem que o avô se esforçava para endireitá-lo. Levava à igreja, lia passagens da bíblia, mas não tinha jeito. Na presença dos pais avós, até que ele maneirava, por respeito. Mas de quando em quando, Jerônimo recebia uma reclamação. Ou era de algum vizinho ou então de um professor.

Para ilustrar e tentar mostrar ao menino a importância de Deus e toda sua influência nas coisas belas e maravilhosas do mundo, Seu Jerônimo sempre que tinha a chance usava como exemplo a natureza e dizia:
— Veja Pite, os pássaros, que lindos! Coisa de Deus, filho! – E olhando para o garotinho, pedia para responder: “Coisas de Deus! Amém”.

Fazia isso sempre que tinha oportunidade. Acreditava que quem sabe assim, de repente, poderia surgir uma pequena luz na cabeça suja do neto.

 E assim era, nos momentos oportunos:
— Pite, olhe. As nuvens no céu! Coisa de Deus, meu filho! – E o menino franzia um pouco a testa, demonstrando que não concordava muito, mas para não desapontar o avô, seguia o padrão:
 — Coisas de Deus vô! Amém!

Se estivessem a passeio pela cidade, e passassem por um lago, o avô não esquecia:
— A água, Pite! Veja... o lago, as águas dos rios... das chuvas! Coisa de Deus! – E o menino:
— Coisas de Deus vô! Coisas de Deus! Amém!

Num certo dia o avô trabalhava no motor da velha camionete em frente à garagem da casa. Capô levantado, muito concentrado, enfiado com quase metade do corpo dentro do carro. O neto, agora já com aproximadamente nove anos, brincava no chão com seus carrinhos a poucos metros dali. O menino muito atento notou que saía da casa ao lado, a vizinha Dona Cecília. Uma jovem viúva, apenas trinta anos. Era uma mulher muito bonita de rosto e de corpo também. Seguia na calçada e passava em frente à casa dos dois. Deu uma ventania de uma hora para outra. O vestido da moça, que era desses tecidos leve de algodão, fino e nada comprido, subiu quase até a altura dos seios, e deixou a mostra suas coxas e seu bumbum, este, partido ao meio por uma calcinha rosa minúscula.

O garotinho viu tudo estupefato, e não perdeu a chance. Olhou na direção do o avô, que ainda estava concentrado no motor, e gritou:

           — Vovô! A rosa vovô! A rosa! ... Coisa de Deus, não é vovô? – O avô surpreso, parou um pouco o trabalho e com um sorriso farto na direção do menino completou:
   — Sim Pite! Isso mesmo meu filho! “Rosa”, ... flores. Coisa de Deus! Amém! 

Dona Cecília, que havia se recomposto e já ia longe, nada percebeu. E nem o avô que voltou pro motor satisfeito – “Não é que o miudinho tem jeito?!”



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R. B. Santos; 2016.




segunda-feira, 24 de abril de 2017

QUANDO ELES PARTEM!






Vem o silêncio. Tem momentos que é bom, dá uma tranquilidade, traz paz e quietude.
Mas tem horas ruins. Dói no peito, no fundo. É a dor da saudade.

Quando eles partem, parte de nós, também parte com eles.
Mesmo com a dor, com o aperto no peito, queremos que sigam em frente. Que sejam felizes.

Tentamos aprontá-los para o maior número de adversidades possíveis. Montamos em nossas cabeças as cenas mais mirabolantes que se possa imaginar. E, em contrapartida, bolamos estratégias sofisticadas e a prova de falhas, para resolver os inúmeros e complicados problemas de todos os tipos que possam surgir.

Foi para isso que os preparamos. Foi pensando nisso, que lhes ensinamos a fina arte do viver. Tentando sempre explicar da melhor forma possível, que mesmo com toda explicação – “nunca” -, estarão completamente preparados. E essa, é a maior lição, a melhor “preparação” de todas. Estar preparado, para o imprevisível.

Quando eles começam a namorar é complicado, mas não é o momento mais grave.
Torcemos para que encontrem e conheçam o amor. Desejamos para eles, parceiros, os melhores possíveis, príncipes e princesas dos Castelos dos Contos de Fada. Para que não sofram, e caso sofram, que se recuperem rápido.

E quando finalmente percebemos que eles tiveram sucesso, e realmente encontraram o amor verdadeiro.



Nossa felicidade existe, e é sincera.
Mas tem um “tiquinho” de tristeza num cantinho dela.
A espera pelo próximo passo. A nova etapa da vida que vem, e faz parte dela, e não podemos mudar.

Eles se casam, e partem para longe. Raramente ficam perto.
A distância é uma exigência e mais um desafio. Como se eles precisassem dela para provar mais uma vez para si mesmos, e também para nós, que conseguem viver sozinhos. Que aprenderam de fato nossas lições. Que são homens e mulheres independentes.

Os dias ficam mais longos, mais silenciosos. A casa fica maior de repente.
O tempo corre devagar. Algumas vezes, tenho a sensação, de que ainda estão ali. Como quando eram crianças, correndo pela casa, esbarrando nos móveis.

“Menino, cuidado!  Vai bater a cabeça na quina da mesa”!
Ouço a mim mesmo ralhando com eles.

Alguém buzina lá fora, me tira do sonho.

A porta é aberta, e entra por ela, eles e netos, preenchendo a casa que estava vazia. Uma avalanche de gente, de sorrisos de vozes. Enchem a sala, o quarto, a cozinha.




De repente de novo, tudo é aceso. E bem melhor, porque é dobrado.
Quando partiu, um só se foi. Agora de volta, somam-se três, ás vezes quatro.

Com os netos no colo, brincando com eles, volto no tempo.
É como se nunca tivessem partido. É como se eu, tivesse outra chance. A chance de ser pai de novo, um pai avô, melhor ainda.
Mais uma chance de abraçar, de ensinar, de brincar.


Mais uma chance, para “AMAR”.


R. B. Santos; 2016.






segunda-feira, 3 de abril de 2017

CONTO - ABRIL; 2017 - "Terremoto Literário".






R. B. Santos / Março; 2017.


Homenagem Carinhosa Para:
 João Ubaldo Ribeiro. (“Meus sinceros agradecimentos ao homem que me ensinou o que é o “Conrad”. Que a partir de então, fez e faz toda diferença na minha vida”).
Tiago Novaes - Professor de Escrita Criativa. (“Que me ensinou o significado da frase: ... fica lá mais um pouquinho. Não saia de lá. Fica lá. Não tenha pressa...”).

Para nossos filhos, primeiro os dela:
A Menininha do Fundo do Ônibus, Pedro – O Explorador do Espaço e também para ela - sua filha mais velha -, a danada e terrível Marina Insana.

Agora os dele, não menos importante:
Peter, para os íntimos Pite (Que ainda insiste em ver as calcinhas das moças desavisadas), e para o Menino Que Fazia Bolhas (Que está vindo por aí).

E para a mais importante de todas, não fosse por ela, não estaria aqui:
                   Luisa Aranha - Grande Escritora. (Que me ensinou muitas lições. Você é realmente especial. Jamais me esquecerei de você. Muito obrigado por tudo”).


                                                        

                                                      Para Aurita N. Brito e,                                                                                     Luzia B. dos Santos.

                                                            


                                                                  TERREMOTO LITERÁRIO    

        
Clarissa e Robinson, dois amigos estudantes do Curso de Escrita Criativa ministrado por “Yago Moraes”, juntaram-se num final de semana para dar cabo de um exercício que estava deixando os dois malucos.
Estavam no quarto da casa da moça, na região litorânea do estado de São Paulo, mais precisamente, na praia do Gonzaga.

Ele, sentado na beirada da cama próximo ao armário.
Ela, no local de tortura: um pequeno home-office que montou ali mesmo, onde fazia seus trabalhos de freelancer, estudava para as provas do curso superior de jornalismo, e de vez em quando como agora, sofria e se torturava enquanto esperava a criatividade aparecer.

Clarissa era uma moça muito simpática, de ótima aparência, cabelos ondulados negros compridos, soltos às costas realçando a beleza. Amava à escrita como poucas que vi. Nem parecia a menina educada de sempre, tamanho os xingamentos quando parava em frente a tela do computador, cada vez que tentava começar a digitar o bendito, o tal “Conrad”.
Sentada encaixada entre as pernas da mesa, com os braços cruzados olhava para tela. Uma página em branco que devolvia o olhar, encarando-a displicente, duvidosa, jocosa:

 “Eu sabia que você não era de nada mesmo”.

Imitou a vozinha da amiga chata que conheceu na infância, queria esmurrá-la, dar-lhe um soco no nariz:

“Nem adianta querer me bater. Como é... Vai ou não vai? Vamos escrever nessa merda ou não vamos? Se não tem mais o que fazer... me libera que eu tenho de ir ali, resolver minhas coisas“.

Ela fuzilou o amigo com os olhos, sobrancelhas coladas, muito irritada:

- Que porcaria de Conrad o quê Robinson? Porque isso? Para quê, isso? A culpa é sua! Você que me veio com esse negócio de Conrad. Saiba que nunca vi exercício mais chato. – Deu um tapinha do lado do notebook, a tela piscou, mas não desligou - Ô... negócio nojento, negócio idiota. Nunca escrevi um exercício mais besta!

Enquanto ela soltava os bichos, o rapaz levantou foi até a janela. Viu andando lá embaixo em frente da casa, caminhando tranquilo João Ubaldo Ribeiro. Como sempre andava bem simples, calçava um chinelo de dedos, um calção curto no meio das coxas, sem camisa. Nu da cintura para cima. Encolheu o pescoço para dentro dos ombros, e fugiu. Desceu a rua correndo às pressas, nem olhou para trás.

Alguns segundos depois quando Robinson se voltou da janela para o quarto, Clarissa ainda estava impassível e resmungona.

- Isso é uma idiotice. Conrad... Conrad... não podemos simplesmente escrever e pronto?

- Ei..., não fique assim, vamos! – Aproximou-se da amiga que havia emborcado na mesa igual um pires virado, com a cabeça entre os braços. Houvesse um terremoto de 6 pontos na escala Richter, nem sentiria, tão esmorecida e colada que estava.

– Eu já te disse... é assim mesmo. – Tentava acalmá-la e incentivá-la – Nosso professor é um grande escritor, um dos melhores professores de Escrita Criativa que conhecemos. E se ele falou, tem fundamento, eu acredito no que ele ensina.
Acariciou a nunca da moça fraternamente por entre os cachos negros e continuou:

- Ele sempre nos diz, lembra? “Fica um pouco mais lá, não fujam... não corram... esperem mais um pouco. A história vai surgir”. Vamos seguir os princípios ensinados por ele, e tenho certeza... vamos conseguir!

Robinson puxou uma outra cadeira, ajeitou colada ao lado da que ela estava, num tom de insistência mais calmo e sereno:

- Façamos assim ó.… ajeite o corpo vamos. Força... garra... – Clarissa ainda desanimada, ajeitou o corpo a contragosto e puxou com as mãos os cabelos encaracolados empurrando-os para trás.

- Está bem... vamos tentar né. Fazer o quê. Você não vai me largar.

- Faça junto comigo. – Começou Robinson - Respire fundo... pausadamente.

Estufou o peito... respirou calma e profundamente. Fez o movimento com as mãos, as palmas viradas para cima, na direção do oxigênio para o nariz.

- Expire... bem... devagar. – Continuou explicando e enquanto falava, também fazia os movimentos, mostrando e fazendo, fazendo e mostrando e olhando para moça.

- Bem lentamente... esvaziando o peito... devagar e sem pressa – movimentos das mãos para baixo, palmas viradas par baixo, empurrando lentamente o ar esvaziando o peito.

Repetiram o processo por três vezes seguidas. Enquanto faziam o exercício de relaxamento, indicado pelo professor no Curso de Escrita Criativa, o silêncio foi acontecendo aos poucos, um clima de paz, harmonia e luz tomava conta do espaço. Dava para ouvir entrando pela janela, o som do vento nas folhas da copa densa do velho Jequitibá. Um pássaro pousou num dos galhos um curioso cantor. João Ubaldo que havia voltado sorrateiro, apontou a cabeça grande e gorda por trás do tronco, mas ainda estava todo desconfiado e ressabiado.

No quarto da menina, a tensão esvaiu-se e Clarissa moveu os lábios num risinho discreto finalmente.

– Tem razão..., você está certo Robinson! – Encarou o amigo, demonstrando um pouquinho mais de confiança na voz - Estou bem melhor. Vamos lá..., vai ser agora ou nunca! Que me sopre aos ouvidos, querida “Clarisse”.

Sacudiu as costas na cadeira procurando o melhor encaixe, posicionou os dedos sobre as teclas “ASDF” e “ÇLKJ”. Respirou fundo..., depois expirou uma última vez. Começou a digitar.

No início algumas letras tímidas, som dos dedos nas teclas pausadamente. Uma aqui, outra ali. Hora palavra, outra parava, olhava através da janela, outras vezes, olhava para o teto, depois retomava baixava a cabeça e continuava.

- Está sentindo? Não está? – O incentivador estava sentado próximo não se conteve. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro no quarto, enquanto falava alto como se só ele estivesse ali, igual escritor, que é tudo um bando de louco. Ô povo maluco, Deus tenha piedade de nós.

– É isso viu só! Não devemos temer a tela em branco. Temos que mandar ver, botar as palavras para fora, ainda que só saia “merda” – riu-se sozinho e continuou – Depois que o texto estiver pronto não esqueça. Vamos ler em voz alta como faz a escritora “Cristiane Krumenauer”. Ela lê de um jeito como se estivesse dentro da história. Suave e sutil, palavra a palavra.

Clarissa não ouviu, começava a entrar na inspiração.
Enquanto falava, João Ubaldo se ajeitava lá fora na calçada embaixo do Jequitibá. Não sei onde ele arrumou aquela cadeira de praia, mas estava agora sentado com uma das pernas dobrada sobre a outra, socado no encosto. Acendeu um cigarro e deu duas baforadas, sorriso nos lábios sacudindo a abóbora como que concordando.

A garota continuava a teclar, agora as pausas eram menores. Já não olhava através da janela, e nem tampouco para o teto. O som aumentava à medida que os intervalos diminuíam. O professor estava certo. Ela estava lá! Chegou lá e ia ficar. Estendeu uma cama, colocou o pijama e deitou. Deitou nas mãos da criatividade, as musas dançavam e brincavam, de mãos dadas ao seu lado. Robinson vendo aquilo tudo de fora e contaminado pela empolgação da amiga, gargalhou e falou:

- Minha garota! Essa é a Clarissa que todos nós conhecemos... não à toa seu nome, parece com o da maior de todas. Aí sim! – Mudou o tom da voz e falou em seguida com uma vozinha de mimo – É a escritorinha do papai né? “Clarissinha Lispector” do papai... é?
        
A escritora entusiasmada não parava agora era insana. Encontrou a história, achou o caminho, a inspiração tomou conta da mente e do corpo dela.
- É isso aí garota! Muito bom! – Robinson levantou os braços para cima como quem comemora, gritou o nome dela três vezes bem alto. Olhou pela Janela para conferir, João Ubaldo ainda sentado (fumando de novo) um sorriso lento baixou os óculos e piscou.

De repente. Robinson esquivou o corpo de uma caixa que acabara de cair de cima do armário. Olhou um tanto assustado para a garota que estava alucinada e não parava. Tomou chá do caule da árvore da vida do planeta Pandora, misturado com raspas da escama do peixe encontrado nas profundezas do mar, do “Segredo do Abismo”.

Alguns minutos depois de ter começado, a intensidade da escrita era tanta; a mulher endoidou foi tomada pela história. Estava como que uma desvairada sacudindo a cabeça em transe e o notebook e a mesa que usava para trabalhar. Até o quarto onde estavam e a casa toda começou a balançar e a tremer. O rapaz teve de segurar na estante de livros para não cair. João Ubaldo lá fora, com os olhos arregalados fez o mesmo, pressionou com força os dentes de cima contra os debaixo, grudou nas alças de alumínio da cadeira de praia, apertou forte com as duas mãos. Um terremoto literário estava começando.
Já não era ela quem estava ali, era um “demônio”, um ser infernal; vinda de outro planeta, ou das profundezas da terra.
As mãos queimavam frenéticas, os dedos faiscavam, o notebook começou a pipocar e a esfumaçar. Não estava ali; escrevendo uma história, estava numa pista de motocross. Pilotava uma moto de várias cilindradas em alta velocidade, cada palavra em cada frase fazendo uma curva fechada, intensa. Se parasse caía em seguida explodia, ela sabia, então; não podia.

“Mais um pouco..., Puff... Puff... – Arfando e suando e não parava –Mais um pouquinho! Só mais um tiquinho...
Parou bruscamente... levantou num salto, a cadeira voou, deu um pulo no ar, o Pelé depois do gol, em seguida gritou.
- AHÁ! Consegui termine...



A frase foi cortada tamanha sua surpresa. Olhou em volta e não acreditou no que viu. Seu quarto transformou-se, em uma ilha pós tsunami. O que era seu orgulho, seu lugar de calmaria, fora tudo destruído fora tudo revirado.
O deitado foi virado... o virado desvirado... o de cima veio abaixo... e os debaixo mais ainda. Objetos pelo chão, mesa torta pés quebrados, a estante foi tombada, e seus livros misturados. Até os vidros da janela, e do barzinho foi ao chão, estilhaçado e quebrado.

Ela não entendeu nada do que tinha acontecido.
Ficou ali, de pé, com os braços abertos, olhando em volta com a boca de “Ô”!
Em silêncio atônita, por alguns segundos.

Observou surpresa parte do amigo embaixo de um armário, só um dos braços para fora, sujo cheio de poeira.



- Mas que porra foi essa que você fez aqui Robinson? – Fez “arfe” contido e mandou brasa no amigo - Você veio ajudar e incentivar? Ou me ferrar e por abaixo a minha casa?

A mão trêmula, ainda presa debaixo do móvel grande e pesado... moveu lentamente em sinal de “joia”.
Um grunhido de dor e de comemoração saiu apertado, mas estava bem.

- S-h---o...w...! – Num esforço brutal, polegar para cima.

Lá fora uma festa, um palco foi montado e improvisado na rua onde Clarissa morava, bem ao lado da sua casa. João Ubaldo Ribeiro estava dançando, apertava os olhinhos e requebrava. Minutos antes, enquanto Clarissa “Terremoto” tentava derrubar a casa - ou quase -, ele tomou a iniciativa, e convidou alguns amigos que estavam fazendo show, e apresentando-se num outro bairro de uma cidade ali perto.

Vieram Carmem Miranda, Dorival Caymmi, Ivete Sangalo e Carlinhos Brown. Carlinhos no palco com o cocar de costume, comandava a festa ao som de “Tantinho”. Mais uma batalha no universo das letras, mais um texto pronto e concluído na então divertida, misteriosa, doida e varrida “Arte da Escrita”.

Veio gente da baixada inteira.
Ivete Sangalo viu João Ubaldo cambaleando e correu para ajudar. Ele; com uma cachacinha na mão, tropeçou nas sandálias e quase veio abaixo. Ivete acudiu antes da queda:

- Qual que é essa daí papai? Tome cuidado! Essa é da boa, trouxe de lá! – Se “rachou” de rir, abraçou-o carinhosa e ficaram por ali, festejando e sorrindo.

Terminada a canção, Carlinhos Brown chamou a atenção de todos, e deu o seu famoso grito em comemoração.

- Vamos lá galera! Toda energia direcionada para nossa querida Clarissa Ribeiro – Levantou os braços e todos acompanharam por quatro vezes seguidas, de acordo com o ritmo no compasso e no tempo.
- AJAYÔ! (Todos – UUU!) – AJAYÔ (UUU!).