segunda-feira, 24 de abril de 2017

QUANDO ELES PARTEM!






Vem o silêncio. Tem momentos que é bom, dá uma tranquilidade, traz paz e quietude.
Mas tem horas ruins. Dói no peito, no fundo. É a dor da saudade.

Quando eles partem, parte de nós, também parte com eles.
Mesmo com a dor, com o aperto no peito, queremos que sigam em frente. Que sejam felizes.

Tentamos aprontá-los para o maior número de adversidades possíveis. Montamos em nossas cabeças as cenas mais mirabolantes que se possa imaginar. E, em contrapartida, bolamos estratégias sofisticadas e a prova de falhas, para resolver os inúmeros e complicados problemas de todos os tipos que possam surgir.

Foi para isso que os preparamos. Foi pensando nisso, que lhes ensinamos a fina arte do viver. Tentando sempre explicar da melhor forma possível, que mesmo com toda explicação – “nunca” -, estarão completamente preparados. E essa, é a maior lição, a melhor “preparação” de todas. Estar preparado, para o imprevisível.

Quando eles começam a namorar é complicado, mas não é o momento mais grave.
Torcemos para que encontrem e conheçam o amor. Desejamos para eles, parceiros, os melhores possíveis, príncipes e princesas dos Castelos dos Contos de Fada. Para que não sofram, e caso sofram, que se recuperem rápido.

E quando finalmente percebemos que eles tiveram sucesso, e realmente encontraram o amor verdadeiro.



Nossa felicidade existe, e é sincera.
Mas tem um “tiquinho” de tristeza num cantinho dela.
A espera pelo próximo passo. A nova etapa da vida que vem, e faz parte dela, e não podemos mudar.

Eles se casam, e partem para longe. Raramente ficam perto.
A distância é uma exigência e mais um desafio. Como se eles precisassem dela para provar mais uma vez para si mesmos, e também para nós, que conseguem viver sozinhos. Que aprenderam de fato nossas lições. Que são homens e mulheres independentes.

Os dias ficam mais longos, mais silenciosos. A casa fica maior de repente.
O tempo corre devagar. Algumas vezes, tenho a sensação, de que ainda estão ali. Como quando eram crianças, correndo pela casa, esbarrando nos móveis.

“Menino, cuidado!  Vai bater a cabeça na quina da mesa”!
Ouço a mim mesmo ralhando com eles.

Alguém buzina lá fora, me tira do sonho.

A porta é aberta, e entra por ela, eles e netos, preenchendo a casa que estava vazia. Uma avalanche de gente, de sorrisos de vozes. Enchem a sala, o quarto, a cozinha.




De repente de novo, tudo é aceso. E bem melhor, porque é dobrado.
Quando partiu, um só se foi. Agora de volta, somam-se três, ás vezes quatro.

Com os netos no colo, brincando com eles, volto no tempo.
É como se nunca tivessem partido. É como se eu, tivesse outra chance. A chance de ser pai de novo, um pai avô, melhor ainda.
Mais uma chance de abraçar, de ensinar, de brincar.


Mais uma chance, para “AMAR”.


R. B. Santos; 2016.






segunda-feira, 3 de abril de 2017

CONTO - ABRIL; 2017 - "Terremoto Literário".






R. B. Santos / Março; 2017.


Homenagem Carinhosa Para:
 João Ubaldo Ribeiro. (“Meus sinceros agradecimentos ao homem que me ensinou o que é o “Conrad”. Que a partir de então, fez e faz toda diferença na minha vida”).
Tiago Novaes - Professor de Escrita Criativa. (“Que me ensinou o significado da frase: ... fica lá mais um pouquinho. Não saia de lá. Fica lá. Não tenha pressa...”).

Para nossos filhos, primeiro os dela:
A Menininha do Fundo do Ônibus, Pedro – O Explorador do Espaço e também para ela - sua filha mais velha -, a danada e terrível Marina Insana.

Agora os dele, não menos importante:
Peter, para os íntimos Pite (Que ainda insiste em ver as calcinhas das moças desavisadas), e para o Menino Que Fazia Bolhas (Que está vindo por aí).

E para a mais importante de todas, não fosse por ela, não estaria aqui:
                   Luisa Aranha - Grande Escritora. (Que me ensinou muitas lições. Você é realmente especial. Jamais me esquecerei de você. Muito obrigado por tudo”).


                                                        

                                                      Para Aurita N. Brito e,                                                                                     Luzia B. dos Santos.

                                                            


                                                                  TERREMOTO LITERÁRIO    

        
Clarissa e Robinson, dois amigos estudantes do Curso de Escrita Criativa ministrado por “Yago Moraes”, juntaram-se num final de semana para dar cabo de um exercício que estava deixando os dois malucos.
Estavam no quarto da casa da moça, na região litorânea do estado de São Paulo, mais precisamente, na praia do Gonzaga.

Ele, sentado na beirada da cama próximo ao armário.
Ela, no local de tortura: um pequeno home-office que montou ali mesmo, onde fazia seus trabalhos de freelancer, estudava para as provas do curso superior de jornalismo, e de vez em quando como agora, sofria e se torturava enquanto esperava a criatividade aparecer.

Clarissa era uma moça muito simpática, de ótima aparência, cabelos ondulados negros compridos, soltos às costas realçando a beleza. Amava à escrita como poucas que vi. Nem parecia a menina educada de sempre, tamanho os xingamentos quando parava em frente a tela do computador, cada vez que tentava começar a digitar o bendito, o tal “Conrad”.
Sentada encaixada entre as pernas da mesa, com os braços cruzados olhava para tela. Uma página em branco que devolvia o olhar, encarando-a displicente, duvidosa, jocosa:

 “Eu sabia que você não era de nada mesmo”.

Imitou a vozinha da amiga chata que conheceu na infância, queria esmurrá-la, dar-lhe um soco no nariz:

“Nem adianta querer me bater. Como é... Vai ou não vai? Vamos escrever nessa merda ou não vamos? Se não tem mais o que fazer... me libera que eu tenho de ir ali, resolver minhas coisas“.

Ela fuzilou o amigo com os olhos, sobrancelhas coladas, muito irritada:

- Que porcaria de Conrad o quê Robinson? Porque isso? Para quê, isso? A culpa é sua! Você que me veio com esse negócio de Conrad. Saiba que nunca vi exercício mais chato. – Deu um tapinha do lado do notebook, a tela piscou, mas não desligou - Ô... negócio nojento, negócio idiota. Nunca escrevi um exercício mais besta!

Enquanto ela soltava os bichos, o rapaz levantou foi até a janela. Viu andando lá embaixo em frente da casa, caminhando tranquilo João Ubaldo Ribeiro. Como sempre andava bem simples, calçava um chinelo de dedos, um calção curto no meio das coxas, sem camisa. Nu da cintura para cima. Encolheu o pescoço para dentro dos ombros, e fugiu. Desceu a rua correndo às pressas, nem olhou para trás.

Alguns segundos depois quando Robinson se voltou da janela para o quarto, Clarissa ainda estava impassível e resmungona.

- Isso é uma idiotice. Conrad... Conrad... não podemos simplesmente escrever e pronto?

- Ei..., não fique assim, vamos! – Aproximou-se da amiga que havia emborcado na mesa igual um pires virado, com a cabeça entre os braços. Houvesse um terremoto de 6 pontos na escala Richter, nem sentiria, tão esmorecida e colada que estava.

– Eu já te disse... é assim mesmo. – Tentava acalmá-la e incentivá-la – Nosso professor é um grande escritor, um dos melhores professores de Escrita Criativa que conhecemos. E se ele falou, tem fundamento, eu acredito no que ele ensina.
Acariciou a nunca da moça fraternamente por entre os cachos negros e continuou:

- Ele sempre nos diz, lembra? “Fica um pouco mais lá, não fujam... não corram... esperem mais um pouco. A história vai surgir”. Vamos seguir os princípios ensinados por ele, e tenho certeza... vamos conseguir!

Robinson puxou uma outra cadeira, ajeitou colada ao lado da que ela estava, num tom de insistência mais calmo e sereno:

- Façamos assim ó.… ajeite o corpo vamos. Força... garra... – Clarissa ainda desanimada, ajeitou o corpo a contragosto e puxou com as mãos os cabelos encaracolados empurrando-os para trás.

- Está bem... vamos tentar né. Fazer o quê. Você não vai me largar.

- Faça junto comigo. – Começou Robinson - Respire fundo... pausadamente.

Estufou o peito... respirou calma e profundamente. Fez o movimento com as mãos, as palmas viradas para cima, na direção do oxigênio para o nariz.

- Expire... bem... devagar. – Continuou explicando e enquanto falava, também fazia os movimentos, mostrando e fazendo, fazendo e mostrando e olhando para moça.

- Bem lentamente... esvaziando o peito... devagar e sem pressa – movimentos das mãos para baixo, palmas viradas par baixo, empurrando lentamente o ar esvaziando o peito.

Repetiram o processo por três vezes seguidas. Enquanto faziam o exercício de relaxamento, indicado pelo professor no Curso de Escrita Criativa, o silêncio foi acontecendo aos poucos, um clima de paz, harmonia e luz tomava conta do espaço. Dava para ouvir entrando pela janela, o som do vento nas folhas da copa densa do velho Jequitibá. Um pássaro pousou num dos galhos um curioso cantor. João Ubaldo que havia voltado sorrateiro, apontou a cabeça grande e gorda por trás do tronco, mas ainda estava todo desconfiado e ressabiado.

No quarto da menina, a tensão esvaiu-se e Clarissa moveu os lábios num risinho discreto finalmente.

– Tem razão..., você está certo Robinson! – Encarou o amigo, demonstrando um pouquinho mais de confiança na voz - Estou bem melhor. Vamos lá..., vai ser agora ou nunca! Que me sopre aos ouvidos, querida “Clarisse”.

Sacudiu as costas na cadeira procurando o melhor encaixe, posicionou os dedos sobre as teclas “ASDF” e “ÇLKJ”. Respirou fundo..., depois expirou uma última vez. Começou a digitar.

No início algumas letras tímidas, som dos dedos nas teclas pausadamente. Uma aqui, outra ali. Hora palavra, outra parava, olhava através da janela, outras vezes, olhava para o teto, depois retomava baixava a cabeça e continuava.

- Está sentindo? Não está? – O incentivador estava sentado próximo não se conteve. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro no quarto, enquanto falava alto como se só ele estivesse ali, igual escritor, que é tudo um bando de louco. Ô povo maluco, Deus tenha piedade de nós.

– É isso viu só! Não devemos temer a tela em branco. Temos que mandar ver, botar as palavras para fora, ainda que só saia “merda” – riu-se sozinho e continuou – Depois que o texto estiver pronto não esqueça. Vamos ler em voz alta como faz a escritora “Cristiane Krumenauer”. Ela lê de um jeito como se estivesse dentro da história. Suave e sutil, palavra a palavra.

Clarissa não ouviu, começava a entrar na inspiração.
Enquanto falava, João Ubaldo se ajeitava lá fora na calçada embaixo do Jequitibá. Não sei onde ele arrumou aquela cadeira de praia, mas estava agora sentado com uma das pernas dobrada sobre a outra, socado no encosto. Acendeu um cigarro e deu duas baforadas, sorriso nos lábios sacudindo a abóbora como que concordando.

A garota continuava a teclar, agora as pausas eram menores. Já não olhava através da janela, e nem tampouco para o teto. O som aumentava à medida que os intervalos diminuíam. O professor estava certo. Ela estava lá! Chegou lá e ia ficar. Estendeu uma cama, colocou o pijama e deitou. Deitou nas mãos da criatividade, as musas dançavam e brincavam, de mãos dadas ao seu lado. Robinson vendo aquilo tudo de fora e contaminado pela empolgação da amiga, gargalhou e falou:

- Minha garota! Essa é a Clarissa que todos nós conhecemos... não à toa seu nome, parece com o da maior de todas. Aí sim! – Mudou o tom da voz e falou em seguida com uma vozinha de mimo – É a escritorinha do papai né? “Clarissinha Lispector” do papai... é?
        
A escritora entusiasmada não parava agora era insana. Encontrou a história, achou o caminho, a inspiração tomou conta da mente e do corpo dela.
- É isso aí garota! Muito bom! – Robinson levantou os braços para cima como quem comemora, gritou o nome dela três vezes bem alto. Olhou pela Janela para conferir, João Ubaldo ainda sentado (fumando de novo) um sorriso lento baixou os óculos e piscou.

De repente. Robinson esquivou o corpo de uma caixa que acabara de cair de cima do armário. Olhou um tanto assustado para a garota que estava alucinada e não parava. Tomou chá do caule da árvore da vida do planeta Pandora, misturado com raspas da escama do peixe encontrado nas profundezas do mar, do “Segredo do Abismo”.

Alguns minutos depois de ter começado, a intensidade da escrita era tanta; a mulher endoidou foi tomada pela história. Estava como que uma desvairada sacudindo a cabeça em transe e o notebook e a mesa que usava para trabalhar. Até o quarto onde estavam e a casa toda começou a balançar e a tremer. O rapaz teve de segurar na estante de livros para não cair. João Ubaldo lá fora, com os olhos arregalados fez o mesmo, pressionou com força os dentes de cima contra os debaixo, grudou nas alças de alumínio da cadeira de praia, apertou forte com as duas mãos. Um terremoto literário estava começando.
Já não era ela quem estava ali, era um “demônio”, um ser infernal; vinda de outro planeta, ou das profundezas da terra.
As mãos queimavam frenéticas, os dedos faiscavam, o notebook começou a pipocar e a esfumaçar. Não estava ali; escrevendo uma história, estava numa pista de motocross. Pilotava uma moto de várias cilindradas em alta velocidade, cada palavra em cada frase fazendo uma curva fechada, intensa. Se parasse caía em seguida explodia, ela sabia, então; não podia.

“Mais um pouco..., Puff... Puff... – Arfando e suando e não parava –Mais um pouquinho! Só mais um tiquinho...
Parou bruscamente... levantou num salto, a cadeira voou, deu um pulo no ar, o Pelé depois do gol, em seguida gritou.
- AHÁ! Consegui termine...



A frase foi cortada tamanha sua surpresa. Olhou em volta e não acreditou no que viu. Seu quarto transformou-se, em uma ilha pós tsunami. O que era seu orgulho, seu lugar de calmaria, fora tudo destruído fora tudo revirado.
O deitado foi virado... o virado desvirado... o de cima veio abaixo... e os debaixo mais ainda. Objetos pelo chão, mesa torta pés quebrados, a estante foi tombada, e seus livros misturados. Até os vidros da janela, e do barzinho foi ao chão, estilhaçado e quebrado.

Ela não entendeu nada do que tinha acontecido.
Ficou ali, de pé, com os braços abertos, olhando em volta com a boca de “Ô”!
Em silêncio atônita, por alguns segundos.

Observou surpresa parte do amigo embaixo de um armário, só um dos braços para fora, sujo cheio de poeira.



- Mas que porra foi essa que você fez aqui Robinson? – Fez “arfe” contido e mandou brasa no amigo - Você veio ajudar e incentivar? Ou me ferrar e por abaixo a minha casa?

A mão trêmula, ainda presa debaixo do móvel grande e pesado... moveu lentamente em sinal de “joia”.
Um grunhido de dor e de comemoração saiu apertado, mas estava bem.

- S-h---o...w...! – Num esforço brutal, polegar para cima.

Lá fora uma festa, um palco foi montado e improvisado na rua onde Clarissa morava, bem ao lado da sua casa. João Ubaldo Ribeiro estava dançando, apertava os olhinhos e requebrava. Minutos antes, enquanto Clarissa “Terremoto” tentava derrubar a casa - ou quase -, ele tomou a iniciativa, e convidou alguns amigos que estavam fazendo show, e apresentando-se num outro bairro de uma cidade ali perto.

Vieram Carmem Miranda, Dorival Caymmi, Ivete Sangalo e Carlinhos Brown. Carlinhos no palco com o cocar de costume, comandava a festa ao som de “Tantinho”. Mais uma batalha no universo das letras, mais um texto pronto e concluído na então divertida, misteriosa, doida e varrida “Arte da Escrita”.

Veio gente da baixada inteira.
Ivete Sangalo viu João Ubaldo cambaleando e correu para ajudar. Ele; com uma cachacinha na mão, tropeçou nas sandálias e quase veio abaixo. Ivete acudiu antes da queda:

- Qual que é essa daí papai? Tome cuidado! Essa é da boa, trouxe de lá! – Se “rachou” de rir, abraçou-o carinhosa e ficaram por ali, festejando e sorrindo.

Terminada a canção, Carlinhos Brown chamou a atenção de todos, e deu o seu famoso grito em comemoração.

- Vamos lá galera! Toda energia direcionada para nossa querida Clarissa Ribeiro – Levantou os braços e todos acompanharam por quatro vezes seguidas, de acordo com o ritmo no compasso e no tempo.
- AJAYÔ! (Todos – UUU!) – AJAYÔ (UUU!).








quarta-feira, 15 de março de 2017

CONTO - MARÇO 2017 - "Meu Querido Junq"





“MEU QUERIDO JUNQ”




   




(Brito Santos) / Novembro/2016

Revisão: Luísa Aranha

Capa: Arte & Criação: Wilson Brito

Autores Novos e Veteranos. Divulgue sua obra aqui. Contato: Vânia Livros

Agradecimentos Especiais:
“Sociedade Secreta dos Escritores Vivos”: Bruno Vieira, Sandro Moreira, Bruno Cardoso.

“Curso de Escrita Criativa”: Tiago Novaes.





Para elas, as mulheres: As duas principais mulheres com quem tive a honra, e o privilégio de conviver. Mesmo por pouco tempo, foi um pouco que virou muito, levando-se em conta a qualidade do tempo vivido.
“Mãe, e Irmã” – “Lú..., você quer umbu?”

Mais mulheres: (Professoras) do Curso de Jovens e Adultos da Escola Fundação Florestan Fernandes em Diadema/SP.
Especialmente para “Fátima” (História); e “Ana Paula” (Português/Inglês). Espero reencontrá-las um dia.






MEU QUERIDO JUNQ



“As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física”.





Manoel Junqueira, este era o seu nome. Para seu amor, era “Junq” (apelido carinhoso pois todo casal apaixonado tem essa mania não é mesmo?). Ou é “tinho”, ou “vida”. Alguns, são verdadeiras bombonieres. “Meu pão de mel”, vem cá "docinho de leite”.  Coisas grudentas, desse tipo.

Estavam juntos há alguns anos. O relacionamento ia bem, cogitavam casar-se. Ter filhos? Quem sabe... mesmo que para isso, fosse necessário adotar. Uma união estável, quem poderia impedir? Namorado antigo? Jamais. Justiça? Também não.

Com o problema na embaixada resolvido, comprou uma linda mansão em Atibaia. Tinha posses para isso, vida plena, vida boa.

O escritório de contabilidade funcionava a todo vapor, clientes aos montes. Pensava em expandir, contratar mais funcionários. Pois é. Parece mentira, mas às vezes acontece. A felicidade aparece, vem e fica.

Estavam bem nos negócios, bem no relacionamento, bem com os amigos. Coisa rara na vida de qualquer um, chegava a dar medo.

O médico psiquiatra, Flávio Gikovate, escreveu sobre o assunto em um dos seus artigos: “... as pessoas, ao se apaixonarem, passam a viver em estado de alarme; muitas vezes em pânico, como se algo de terrível estivesse para lhes acontecer”.

Sinceramente? Junq... dava de ombros para isso. Não que ele não respeitasse a opinião do médico, longe disso. Preferia olhar sempre, o lado mais otimista da vida, ver o copo “quase cheio”. Se era assim, com o copo quase cheio, quem dirá, com ele “passado à régua”.

Como vida é ciranda, coisa viva que vagueia, chamava o Chico para cantar: “Roda mundo, roda-gigante, rodamoinho, roda pião, o mundo girou num instante, a roda do meu coração”.

Uma mudança sutil ocorreu depois do feriado. Juntos mais uma vez, como gostavam de fazer, os três amigos fiéis, Carmen Lúcia, Manoel Junqueira e Albano Matoso, passaram um dos finais de semana mais divertidos da vida, como se o futuro adivinho e precavido, os premiasse pelo sofrimento vindouro.
Contrapeso e equilíbrio na balança da mulher que segura a espada.

Se conheciam desde os tempos de colégio, todos os homens naquela época desejavam Carmem Lúcia, também, com aquele corpão. Quando tinha apenas quinze anos, a menina já parecia uma “toura”. “Toura” de touro mesmo! Como se fosse esse o feminino.

Botava umas roupas “Meu amigo”! Aqueles vestidinhos que vem o demônio no tecido, quando a mulher anda, é uma festa ali atrás, todo homem quer entrar mesmo sem ser convidado. Junq, um pouco tímido e sutil, ficava enciumado algumas vezes.

Já Albano, macho alfa, arranca toco pega tudo e estraçalha, brincava com ela dizendo:

“Ah..., se eu fosse mulher! Iria me vingar..., ô; se iria. O que eu faria? Sairia na rua com uma roupa bem provocante, sabe? Tipo essa que você está usando aí. E então, quando aparecessem candidatos, eu iria dar que só, dar sem dó. Dar pra caralho, deixar todos eles moles.
E tem mais... quem não desse no couro, ia colocar na lista. A lista dos broxantes. Para aprender a se garantir”.

Carmem Lúcia ria. Dizia que todo homem era igual, todo homem pensava desse jeito. Bons encontros, bons tempos aqueles.

No recente final de semana, relembraram bons momentos: suas bagunças e curtições de adolescentes, inventaram e criaram novidades. Beberam, comeram, jogaram. Quase uma perfeição. Quase! Dois dos três agora noivos, pelo sim ou pelo não, justa e posta divisão.

No meio da brincadeira, quando estavam disputando uma partida de “Just Dance”, Junq percebeu que Albano, estava a todo momento perto demais de Carmem Lúcia. Conversando mais que o de costume. De início, achou normal. Afinal de contas, a amizade dos três era antiga.

“Será que eles já haviam tido um caso antes? E ele, Junq nunca ficara sabendo? Não, não, não... tira isso da cabeça rapaz, isso é só viagem, apenas viagem. É apenas o excesso de rum, com limão gelo e soda. ”

E foi assim que Junq, começou a desconfiar dos dois. Pouco a pouco. Os atrasos para os compromissos que não aconteciam antes, uma viagem aqui outra li. As ligações em horas estranhas, sempre com descrições ou pelos cantos.

“Quem era? ” “Hã? Nada não... apenas um amigo do trabalho”. A coisa intensificou, ou um copo esvaziou. Ou quem sabe, transbordou. Chegou uma hora, em que ficou insustentável.

A semana decisiva na vida do trio seria aquela. Junq, depois do ocorrido na festa andava muito desconfiado, fez o que não costumava fazer. Uma das coisas que odiava nas pessoas, esgueirou-se por entre os móveis, e, durante uma das ligações, ficou ouvindo atrás da parede.
“Sábado? Está bem. No mesmo lugar de sempre? Na mesma hora de sempre”. No fim a frase que terminou por selar seu destino massacrou seu coração. “Um beijo”! Aquela frase... duas palavras... nunca tinham soado tão dolorosas para ele como desta vez.

Já havia ouvido tantas e tantas vezes, amigos cumprimentarem-se assim, é normal. Mas não ali, não entre eles dois, ele tinha certeza. Intuição, coisas do coração, de quem ama e está apaixonado. “Como ela pode? E ele...esse... porco traidor...aquela... puta e vadia”.

Teve uma ideia: Iria até o encontro acabar com a festa. Surpreenderia os dois, e pronto. Se fosse o caso, desceria o cacete. Afinal de contas, quando o lance é traição, não tem esse negócio de culpa de um, e não culpa do outro.

Tudo safado e sem vergonha, farinha do mesmo saco para citar o dito mais dito de todos os tempos. Para ter dedo na rosca, precisa dos dois. “Da rosca e do dedo”. Estava decidido.

Na sexta-feira de manhã, Junq inventou uma viagem de negócios, disse que só retornaria no domingo. Comprou até mesmo a passagem de avião, mostrou e tudo, para dar credibilidade, queria deixar os dois “pombinhos” bem à vontade.

Assim, sem desconfiar de nada, sem nem imaginar o que estaria esperando por eles. Queria pegar no flagra, ver com os próprios olhos. Todo homem traído merece isso, para limpar sua alma.

Bons tempos aqueles em que às mulheres tinham a dignidade como principal característica. O que aconteceu com as mulheres meu Bom Deus? A culpa foi dela. Sempre dela. Ele sabia, dizia isso para os amigos quando conversavam sobre o assunto.

“A tal: ‘Revolução Feminina’. A culpa sempre foi da ‘Chiquinha Gonzaga'. Maldita Chiquinha Gonzaga, ela e seu piano infeliz. Foi ali que começaram os ‘pancadões’ da vida. Que hoje dominam as grandes metrópoles, e muitas vezes varam as noites das periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo, impedindo todo e qualquer um, de ter uma mínima noite de sono. Imaginou a sua canção mais famosa, uma marchinha de carnaval: ‘Ô abre alas... que eu quero passar...’, tocado com som ao fundo do “Beatbox” puxado pelo DJ. Aquele ‘tchu-tchu-tchu’ horrível e repetitivo feito com a boca, os lábios abrindo e fechando rapidamente, batendo um contra o outro e cuspindo”.

Durante a noite, Junq de propósito aproximou seu corpo deixando claro sua intenção, para ver se rolava alguma brincadeirinha entre os dois. Porém nada aconteceu. Foi como havia imaginado, o fingimento entrou em cena.

“Sinto muito, mas hoje não dá, não estou bem”!
“Não estou muito bem é uma pinoia! ”, pensou Junq. Queria mesmo era guardar todas as forças, todos os seus fluídos, inclusive seu suor, para a traição.

“Filhos duma puta, miseráveis, como podem”. O sono demorou, criou filmes na cabeça, via os dois em kama sutra, outras vezes cabaret.

Na manhã do sábado, como tudo já estava preparado de antemão, mesmo tendo dormido mal, acordou cedo, tomou banho e café. Saiu na hora que disse que sairia, para não levantar nenhuma suspeita.

No beijo de despedida, se manteve frio e calculista, mas não deixou de imaginar aqueles lábios noutro corpo e sua língua noutra carne. Sentiu-se enojado. Cortaria à fria faca, fino fio em franco corte.

Pegou o carro, o peso do pé no acelerador, a arrancada seguida do barulho dos pneus riscando o chão. Sua marca, sua urina, dirigiu até um ponto, em que pudesse fazer a perseguição sem ser visto, à distância.

Nem precisou esperar muito, provavelmente o tesão dos dois estava à flor da pele, “Malditos! Se fosse mesmo viajar, mal teria saído. Não dariam o tempo, nem de tomar o avião”.

Seguiu o carro tranquilo, com toda descrição. Tomando o cuidado de deixar alguns outros veículos entre eles, até chegar no local designado. Quando o perseguido estacionou, fez o mesmo.

Foi aí então que viu, sem querer crer, sem querer ver. Uma flechada, uma agulhada, uma pancada, uma explosão.
Sua desconfiança, suas dúvidas que até então ainda se achavam penduradas no corcovado, segurando em fracas raízes e cipós, caiu de repente.

Uma queda no vazio, uma queda no escuro. Queda funda e sem volta, buraco largo escuro negro. Tudo estava acabado, o destino dos três, selado para sempre.

Só lhe restava uma coisa a fazer, esperou que entrassem na casa, não era um motel. Escolheram uma casa tradicional, um sobrado simples, numa rua de pouco movimento. 

Assim era melhor, mais fácil invadir sem portão um muro baixo.
Caminhou até a entrada, na frente os dois carros estacionados. Um atrás do outro, bem coladinhos. Dando um recado claro, do que estaria acontecendo.

Conferiu a pistola. As aulas de tiro finalmente pagariam seu valor. Para abrir a porta, usaria dois clips, isso era fácil. Praticava de vez em quando até por brincadeira.

Assim que entrou, conforme caminhava ficava tudo evidente. As peças de roupas formando o caminho e a indicação da transa, primeiro as formais, depois as informais...

E por fim, as íntimas. Alguns sussurros, dois gemidos, um pouco baixo ainda lento, dava até um certo tesão, mas o ódio era maior.

O ódio pegou o tesão pelo pescoço, empurrou contra a parede, e com adaga pontiaguda perfurou seu coração, olhou fundo nos seus olhos, sem nenhuma piedade, olhar frio, olhar medonho, um olhar sem emoção.

Subiu as escadas devagar, no andar de cima a porta do quarto estava entreaberta. A respiração ofegante, o cheiro dela, do creme dela, do perfume dela, do corpo dela. Ela em cima dele, cavalgando. O frenesi e a vontade. 

Vasta a fome um do outro, dava até uma certa inveja. Os dois, com os olhos fechados, nem perceberam quando ele entrou. Ficou alguns segundos observando, realmente era linda.

Peitos grandes, rígidos, coxas grossas, bunda avantajada, sacudindo as carnes conforme o corpo se movia para frente e para trás. Gemidos, mais fortes, mais alto. Não permitiria que gozassem! Arma apontada nas mãos trêmulas.

Não estavam firmes o suficiente, mas era perto e não tinha como errar.
Disparos! Um... dois... nela, por trás. Três... quatro... nele, no peito. Cinco... seis... na cabeça dela. Sete... oito... na cabeça dele. Pronto.

Sentou na beira da cama onde um ato sexual acontecia ainda a pouco. O cheiro do sexo agora, misturado ia sendo substituído aos poucos, pelo da pólvora. Latidos vindos da janela. Um funeral a caminho, o final que todos os traidores mereciam e merecem.

Olhou na mesinha ao lado, um papel rabiscado. Não... na verdade uma carta. No envelope “Meu Junq”, com um coração, circulando o nome. Dentro, estava impresso:



Para Manoel Junqueira

“Meu Querido Junq”,

O maior amor que tive em minha vida, por muito, muito tempo.
Meu amor, não pense que estou mentindo por favor. É a mais pura verdade. Estou indo embora sem nada dizer, porque não tenho coragem ainda. Há algum tempo, venho tentando encontrar forças e coragem para te contar, juro que tentei. Por Deus, tentei diversas vezes. Sempre tive certeza do que queria em minha vida, nunca tive dúvidas sobre nada. Você estava certo sobre muitas coisas, só errou em uma. Em me aceitar. Em me deixar fazer parte da sua vida. Nestes três últimos anos, tenho sabido mais que nunca, o que é viver felicidade. Achei até que não conseguiria sentir algo além. Que o nosso amor era o ápice das alturas. O clímax do clímax. Mas não foi assim.
Espero que nos perdoe um dia por isso. Éramos amigos. Sim, éramos. Nossa amizade sempre foi verdadeira. Se estiver lendo essa carta é porque agora já não estaremos aí com você. Planejamos fugir, ir para bem longe, para nunca mais voltar e para nunca mais nos vermos. Seria impossível uma vida nova, com você perto. Então decidimos assim. Assim é melhor ou... menos pior. O que os olhos não vêm o coração não sente, isso é um fato.
De alguém, que te amou com toda a paixão, que cabe em um coração humano.

Albano Matoso de Oliveira.



Sua visão foi ofuscada, tanto água, tanto choro, tão molhado estavam os olhos. Caiu devagar e de joelhos, com a carta na mão, o corpo balançando em pêndulo, então gritou rasgando o ar com um alto estrondo:

- Arghhhhhhhhhhh! Nããããooooo! Não... não... não... – pegou a carta, amassou com os punhos e apertou contra a testa. Ficou assim, alguns segundos.

Pouco tempo depois ergueu a cabeça, ainda zonzo, respirou.
Procurou o resto das forças, por fim levantou devagar e pesado. Ouviu o som de conversas lá fora, sirenes ao longe, pela janela.

Ajeitou um dos corpos na cama, o outro rolou e empurrou para o lado. Como quem se livra do lixo, um saco pesado jogado no cesto.
Tirou toda a roupa do corpo. Ficou nu e deitou-se com o outro corpo na cama arrumados de um jeito, como um casal.

Pegou a arma na mesa ao lado. Olhou para o teto, soluçou e chorou:
– Agora... meu amor... ninguém vai nos separar...
“Meu amor, minha vida... foi meu tudo, foi meu lar. ”... “Meu Querido Albano”.

No chão frio ao lado da cama, o corpo de Carmem Lúcia que já foi um dia tão quente como o sol, mas que agora era uma casca vazia e sem vida, branca e sem cor.
Como sempre tão juntos, quem iria mudar. Não passou mais que um segundo... outro tiro cortou o ar.